Rua Monsenhor Miranda, no Centro.
Rua Cristina Ziède, Centro.
Por essas coincidências estranhas da vida, apesar de hoje morar em Rio das Ostras, eu fui testemunha ocular da catástrofe ambiental que atingiu Friburgo em 12 de janeiro último - passava férias no apartamento da minha mãe, na Av. Alberto Braune. Coincidência ou não, a minhoca da terra voltou a ela em seu momento mais trágico...
Ouvi toda aquela chuvarada que caiu na cidade desde o início da noite do dia 11. Quando voltava do médico, lá pelas 19h30, já começava a chover um pouco mais forte. E a chuva, que ficou batida a partir de umas 22h, não parou mais até a manhã do dia seguinte.
Nada poderia nos preparar para as cenas de horror do dia seguinte em diante...
Fomos acordadas à 1h da madrugada para minha mãe tirar o carro da garagem subterrânea, que já inundava. Voltamos a dormir mas acordei cedo, às 6h30, com minha mãe tensa com a chuvarada da noite. Saí com ela para ver os efeitos da chuva...
Da rua Duque de Caxias já vi a avenida com o rio Bengalas transbordado - a água chegava até a altura da rua José Eugênio Müller. Fomos no Paissandu, vimos o lameiro e parte da Praça Marcílio Dias ainda com água.
Sem luz e telefone, meio que por impulso, resolvi visitar amigos (e ex-vizinhos) que moram na rua Monsenhor Miranda - fui moradora daquela rua por 25 anos. E com a cena dos deslizamentos nas ruas Luiz Spinelli, Cristina Ziède e Miranda Fortes - lugares até então impensáveis para se ter deslizamentos - que pude entender melhor a gravidade daquela noite de tempestade - até então, imaginava uma inundação como a da enchente de 1996.
Chorei com a cena. Pra quem ama a cidade, dói ver ruas antes tão bonitinhas, tão aconchegantes, sob escombros e lama. Nunca achei que viveria para ver aquilo: deslizamento ali!!! E, com o desvio de um rio que passa no Tingly para a rua Monsenhor Miranda, devido a uma queda de barreira, a rua chegou a ficar submersa durante a madrugada... Sim, a Monsenhor Miranda submergiu!!! A mesma Monsenhor Miranda para onde meus parentes e amigos correram para se abrigar na enchente de 1996, por ser considerada segurada e à prova de alagamentos...
E até então, sem luz (e, consequentemente, sem TV, internet e celular) e sem telefonia fixa, ainda não fazia idéia dos deslizamentos na Praça do Suspiro, Vila Amélia, rua General Osório e nos bairros e distritos ao Norte da cidade: Conselheiro Paulino, Riograndina, Duas Pedras, Córrego D'Antas, Campo do Coelho e outros... além das cidades vizinhas na serra... Só ficamos sabendo de toda a tragédia quando a luz voltou na Alberto Braune, na quarta à noite...
Nunca, nunca mesmo, em meus mais loucos pesadelos, poderia imaginar ver minha cidade em estado de guerra. Parecia que uma tsunami havia passado por Friburgo. As pessoas andando a esmo no centro, perdidas, sem saber o que fazer e para onde ir... o quartel-general improvisado das Forças armadas em frente à prefeitura... comércio fechado e pessoas disputando velas e comida nas poucas quitandas abertas.
Quem me conhece sabe que saí de Friburgo por não conseguir emprego na cidade, e que meu sonho é voltar para a terrinha. Fui criada lá desde os 6 anos de idade, é a terra onde vivi infância e adolescência, onde a maior parte da minha vida aconteceu.
E, de repente, aquele que era meu refúgio se desfez, como os morros da cidade, que parecem sangrar, ao olharmos os deslizamentos.
A cidade está o caos, sei de conhecidos que morreram na tragédia, e de outros tantos ainda não tenho notícias... Economia parada, pessoas sem saber quando e como voltam a trabalhar. Friburgo está paralisada. De verdade.
Dói, dói muito ver minha querida terra natal assim... não dá para explicar, a gente simplesmente sente...
Já tive um início de ano bastante difícil, deprimido, devido a alguns sacolejos na minha vida pessoal; agora, me sinto arrasada por dentro. Meu espírito está devastado. É como se cidade acompanhasse meu estado de espírito - ou vice-versa...
E 2011 está apenas começando... Deus nos dê forças para reerguer a cidade do caos. E que me ajude também a superar tantas perdas e a voltar a sorrir de novo...
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OBS: Não consegui girar as fotos aqui para ficarem na vertical, foi mal... Tou sem pique até pra isso...